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Estudo inédito identifica o acetato de noretisterona como tratamento eficaz para sangramento prolongado em usuárias de implante contraceptivo de etonogestrel

Publicado na revista científica mais prestigiada da área de Ginecologia e Obstetrícia, trabalho liderado por pesquisadoras da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto pode melhorar a qualidade de vida das usuárias com sangramento desfavorável e diminuir a retirada precoce do implante

Um estudo inédito desenvolvido por pesquisadoras da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP demonstrou que o acetato de noretisterona, um medicamento já conhecido na prática ginecológica, é eficaz para interromper o sangramento prolongado causado pelo implante subdérmico de etonogestrel, um dos contraceptivos mais eficazes e seguros disponíveis atualmente. A pesquisa, publicada na American Journal of Obstetrics and Gynecology, a principal revista científica internacional da área, representa um avanço direto e aplicável na assistência à saúde da mulher.

Com apenas 7 dias de uso da medicação, 87% das mulheres que apresentavam sangramento prolongado cessaram o sintoma. Esse número aumentou para 91% após 14 dias, com apenas 2% de falhas terapêuticas no período de 30 dias de avaliação. Apesar da eficácia comprovada, o medicamento ainda não está disponível no SUS, o que limita o acesso a um tratamento que poderia melhorar a experiência de milhares de mulheres que recorrem ao implante.

“A comprovação de novas possibilidades terapêuticas tem o potencial de contribuir para maior continuidade desse contraceptivo tão eficaz e, consequentemente, ter um impacto direto na redução de gestações não desejadas”, explica a médica ginecologista Maíra Cristina Ribeiro Andrade, mestre pela FMRP e uma das autoras do estudo.

O desconforto que leva à interrupção

O implante de etonogestrel é um pequeno bastão inserido sob a pele, com liberação contínua do hormônio ao longo de três anos. Semelhante à pílula no mecanismo de ação, ele se destaca pela alta taxa de eficácia, reversibilidade e segurança — sobretudo por não conter estrogênio, sendo indicado inclusive para mulheres com contraindicação ao uso de anticoncepcionais tradicionais.

Apesar das vantagens, alterações no padrão de sangramento uterino são frequentes nos primeiros meses de uso do implante. Cerca de 40% a 50% das usuárias podem apresentar sangramentos prolongados ou frequentes, o que, embora não represente risco físico à saúde, pode comprometer a qualidade de vida e levar à interrupção precoce do método.

“Essas mudanças são a principal causa de retirada precoce do implante, especialmente quando o profissional de saúde não explicou previamente para a mulher que elas poderiam acontecer”, destaca a professora Carolina Sales Vieira do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da FMRP, coordenadora do estudo e referência internacional na área de contracepção.

Participação feminina e condução do estudo

O ensaio clínico foi realizado com apoio da Unidade de Pesquisa Clínica da Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Assistência do Hospital das Clínicas (FAEPA), que oferece infraestrutura para a condução de estudos de alta qualidade. Mais de 500 mulheres compuseram a coorte inicial, da qual foram selecionadas as participantes para o estudo principal. Segundo as pesquisadoras, houve grande interesse das mulheres em participar da pesquisa, refletindo a alta demanda das mulheres por esse método contraceptivo seguro e eficaz para prevenir gestações não planejadas. 

“As pacientes completaram o período mais importante do estudo, que eram os 30 primeiros dias. A desistência foi 33% maior no grupo placebo, mostrando como o controle do sangramento afeta a taxa de continuidade do contraceptivo”, relata Maíra.

A pesquisadora explica que ao final de 12 meses de uso do implante, a taxa de pacientes com padrão de sangramento desfavorável cai para 20% das usuárias, logo, opções terapêuticas que ajudem com que elas consigam ter uma melhor experiência de adaptação no momento de maior incidência destas alterações de sangramento, são importantes para proporcionar mais conforto durante este período. O novo tratamento surge, portanto, como uma resposta prática para melhorar a adaptação nos primeiros meses de uso do implante de etonogestrel.

Um estudo brasileiro de aplicação imediata

O resultado do estudo surpreende não apenas pela eficácia do tratamento, mas também pela velocidade com que pode ser aplicado na prática clínica. O acetato de noretisterona, embora ainda fora da lista de medicamentos oferecidos pelo SUS, já é utilizado há décadas para outros tipos de sangramento uterino anormal e poderia ser incorporado como uma opção para esse perfil de pacientes.

Antes deste estudo, a pílula anticoncepcional combinada, que tem estrogênio e progestagênio, era um dos medicamentos mais utilizados para a suspensão do sangramento desfavorável em usuárias do implante de etonogestrel. No entanto, há pessoas que não podem usar estrogênio ou que se sentem incomodadas de usarem dois métodos anticoncepcionais simultaneamente ou que apresentam efeitos colaterais importantes com a presença do estrogênio. Neste sentido, segundo a professora Carolina, poder oferecer uma opção que contém um progestagênio isolado, como o acetato de noretisterona, é um avanço. 

Mesmo com os avanços, a pesquisadora alerta que há pouco investimento em estudos focados nos efeitos colaterais dos métodos contraceptivos. O motivo, segundo a professora, são diversos: ensaios clínicos são caros, demorados e, muitas vezes, não recebem o financiamento adequado, especialmente em temas ligados à saúde da mulher. Além disso, a causa exata do sangramento prolongado em parte das usuárias do implante de etonogestrel ainda é desconhecida, dificultando o desenvolvimento de novos fármacos.

Mais ciência e maior acesso

O grupo de pesquisa continua analisando os dados da coorte original, com foco na identificação de fatores genéticos, clínicos, hormonais e ultrassonográficos associados ao sangramento prolongado. O objetivo é entender melhor sobre as causas do sangramento desfavorável das usuárias do método contraceptivo e, assim, permitir um manejo personalizado desde o início do tratamento.

O uso de inteligência artificial também está na mira do grupo de pesquisa para auxiliar na previsão de usuárias do implante de etonogestrel que evoluem para sangramento desfavorável nos primeiros três meses de uso do implante, uma vez que como foram coletados diários de sangramento por 12 meses de 500 pacientes.

Ao mesmo tempo, cresce o apelo para que o tratamento testado possa, no futuro, ser incorporado às políticas públicas de saúde. O próprio implante de etonogestrel, que já era oferecido pelo SUS para públicos específicos, foi recentemente incluído como método disponível para todas as mulheres que desejarem, além de ter sido incorporado ao rol da saúde suplementar.

“Aumentando a disponibilidade e o alcance do implante, a demanda por tratamento do sangramento desfavorável, que pode ocorrer em uma parte das pacientes, também irá aumentar”, afirma Maíra.

Este estudo foi planejado e liderado por professores da FMRP e contou com a participação de grandes universidades como a UNICAMP, a UNIFESP e a Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, fortalecendo o reconhecimento internacional da ciência feita no país.

“Isto mostra que temos ciência de ponta sendo feita no Brasil, que não perde em nada para pesquisas de outros países. Nosso estudo é um dos que apresenta maior qualidade neste tema e tem grande importância pela aplicação prática imediata no dia a dia do profissional que trabalha com anticoncepção”, afirma Carolina.


Eduardo Nazaré

Dr. Fisiologia — Assessoria de Comunicação da FMRP-USP