Pesquisa revela que a oxidação de lipídios é maior em mulheres com obesidade, contrariando a teoria do “metabolismo lento”
Mulheres com obesidade apresentam maior oxidação de lipídios em repouso do que mulheres com peso considerado normal. A constatação de um estudo realizado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, publicado na revista Frontiers in Nutrition, contraria a ideia amplamente difundida de que a obesidade está associada a uma menor capacidade de queimar gordura.
A pesquisa da doutoranda Lorena Medeiros Batista, orientada pelo professor Julio Sergio Marchini do Departamento de Clínica Médica da FMRP, analisou o metabolismo energético de 216 mulheres adultas, mostrando que mesmo sem a prática de atividade física, mulheres com obesidade utilizam mais gordura como fonte de energia.
A obesidade é uma condição que atinge parcela crescente da população brasileira. Dados da Pesquisa Vigitel 2024, principal inquérito de saúde do país, mostram que a prevalência de sobrepeso e obesidade passou de 42,6% em 2006 para 61,4% em 2023. Entre as mulheres, esse aumento foi ainda mais expressivo, saindo de 38,5% para 59,6% no mesmo período. Além de representar um desafio de saúde pública, a obesidade está associada a uma série de complicações, como hipertensão, diabetes, doenças cardíacas, distúrbios hormonais e articulares, impactos psicológicos e sociais.
Adaptação metabólica
A metodologia incluiu a análise do gasto energético em repouso e da utilização de gordura e carboidrato como substratos energéticos, por meio da técnica de calorimetria indireta — técnica não invasiva que serve para medir o gasto energético em repouso.
Segundo Lorena, os resultados sugerem que esse comportamento pode representar uma resposta adaptativa do organismo ao excesso de gordura corporal. “Esse maior estoque aumenta a disponibilidade de ácidos graxos livres, que passam a ser mais utilizados como fonte de energia”, esclarece a pesquisadora.
Lorena sugere que o conceito popular de “metabolismo lento” pode ser considerado uma simplificação exagerada, uma vez que o estudo demonstrou que o gasto energético em repouso é, na verdade, igual ou até maior em pessoas com obesidade. Os achados refletem uma adaptação do organismo ao excesso de massa corporal e não um metabolismo necessariamente “mais lento”.
Oxidar mais gordura não significa emagrecer
Apesar da maior oxidação de lipídios, a pesquisadora reforça que a obesidade é uma condição complexa e multifatorial. “Mesmo com maior queima de gordura em repouso, isso não é suficiente para promover perda de peso se outros fatores não forem controlados”, destaca Lorena. Segundo a pesquisadora, isso inclui o balanço energético total, que depende da relação entre ingestão calórica e gasto energético ao longo do dia.
Portanto, a maior oxidação de lipídios observada em mulheres com obesidade não é suficiente, por si só, para evitar o acúmulo de gordura corporal. No entanto, essa adaptação não impede o ganho de peso ao longo do tempo e pode estar associada a um estado de sobrecarga metabólica, com possíveis impactos negativos à saúde quando o desequilíbrio energético persiste.
O achado indica que o organismo pode desenvolver adaptações metabólicas diante do excesso de tecido adiposo, o que amplia a compreensão científica sobre os mecanismos envolvidos na obesidade feminina. “A oxidação lipídica tem potencial para ser utilizada como um marcador metabólico na personalização de dietas. Ela pode auxiliar na escolha de estratégias nutricionais mais adequadas à capacidade metabólica individual de utilizar gordura como fonte de energia”, explica Lorena.
O cuidado com pessoas com obesidade precisa ser individualizado, já que se trata de uma condição crônica que não se manifesta da mesma forma em todos. Levar em conta as diferenças do metabolismo, dos hormônios, do comportamento e do quadro clínico de cada pessoa torna o tratamento mais adequado e seguro, permitindo combinar alimentação, prática de atividade física e, quando necessário, medicamentos de acordo com as necessidades específicas de cada indivíduo.
Perspectivas para o futuro
A pesquisa foi realizada apenas com mulheres, para reduzir a variabilidade hormonal e metabólica da amostra. No entanto, a autora reconhece que essa é uma limitação e já planeja novos estudos que incluam também participantes do sexo masculino.
“As mulheres apresentam diferenças hormonais e metabólicas importantes, que influenciam a oxidação de substratos energéticos e a resposta ao excesso de peso. Para reduzir a variabilidade dos resultados, optamos por estudar apenas mulheres. Ainda assim, reconhecemos a ausência do sexo masculino como uma limitação do estudo e pretendemos incluir ambos os sexos em pesquisas futuras”, conclui Lorena.
Texto: Laura Madalossi*
*Estagiária sob supervisão de Eduardo Nazaré
Dr. Fisiologia — Assessoria de Comunicação da FMRP-USP