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Foto: HC Educa+ e Reuters

Docente da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto integra grupo da OMS para construção de novas diretrizes sobre contracepção

Professora Carolina Sales Vieira Macedo foi a única representante brasileira no grupo responsável pela atualização dos principais guidelines de contracepção da Organização Mundial da Saúde, lançados em novembro, em Bogotá.

A professora Carolina Sales Vieira Macedo participou, no dia 3 de novembro de 2025, em Bogotá (Colômbia), do lançamento oficial da sexta edição do Medical Eligibility Criteria for Contraceptive Use e da quarta edição do Selected Practice Recommendations for Contraceptive Use, documentos da Organização Mundial da Saúde que orientam políticas públicas e decisões clínicas em contracepção em âmbito global. A docente integrou o Guideline Development Group (GDG), grupo internacional responsável pela análise das evidências científicas e formulação das recomendações, sendo a única representante brasileira entre os 19 especialistas participantes.

Processo técnico e construção de consenso

O convite para integrar o grupo surgiu em 2018, após seu retorno de estágio de pós-doutorado em Nova York. Como membro do GDG, a professora participou da revisão crítica das evidências, da interpretação de revisões sistemáticas e meta-análises e da deliberação sobre as recomendações finais.

As diretrizes são tradicionalmente revisadas a cada cinco anos. Inicialmente, a OMS coleta demandas de atualização junto a especialistas e escritórios regionais. Em seguida, uma Secretaria de Evidências reúne e analisa a produção científica publicada no período. O GDG é então convocado para definir, por consenso, quais tópicos serão incluídos na revisão.

Com base nas meta-análises e revisões sistemáticas, o grupo classifica cada método contraceptivo frente a diferentes condições clínicas. As recomendações são organizadas em quatro categorias:
1 – sem restrição;
2 – benefícios superam riscos;
3 – riscos superam benefícios, devendo ser utilizado apenas na ausência de alternativas;
4 – risco inaceitável, não devendo ser utilizado.

“Traduzimos evidências complexas em recomendações práticas para ajudar profissionais de saúde, formuladores de políticas e gestores a tomar decisões informadas sobre a segurança dos contraceptivos”, explica a docente.

Principais atualizações para a prática clínica

Entre as mudanças consideradas mais relevantes está a atualização relacionada ao contraceptivo injetável trimestral no período pós-parto. A nova edição amplia a segurança para sua utilização em mulheres em amamentação logo após o parto, refletindo evidências mais recentes sobre métodos apenas com progestagênio nesse contexto. Anteriormente, era recomendada a prescrição após seis semanas do parto. 

No Selected Practice Recommendations, a principal novidade foi a recomendação explícita de oferecer alívio da dor na inserção do dispositivo intrauterino (DIU). Foram revisadas evidências sobre métodos farmacológicos e não farmacológicos, incluindo bloqueio anestésico do colo uterino (paracervical ou intracervical), anestésicos tópicos e anti-inflamatórios como estratégias para reduzir a dor durante o procedimento.

Segundo a professora, “a recomendação de oferecer medidas de alívio da dor representa um avanço importante para qualificar a experiência da mulher e melhorar a prática clínica”. A dor na inserção do DIU é uma barreira importante para a escolha desse método por muitas mulheres.

Contribuições e impacto institucional

Embora as decisões sejam construídas de forma coletiva, a docente destaca que sua experiência contribuiu especialmente nas discussões relacionadas à contracepção no pós-parto e ao manejo da dor na inserção do DIU.

Ser a única representante brasileira no grupo internacional, afirma, representa reconhecimento à trajetória acadêmica construída na área de contracepção. Ao longo dos últimos anos, a professora participou de estudos que influenciaram condutas no Brasil e no exterior, como a inserção do implante contraceptivo no pós-parto imediato.

Além da produção científica, a docente ressalta a transformação na formação profissional e na assistência local. A residência médica ampliou de forma significativa a capacitação prática em inserção de DIU e implantes. O centro de treinamento em Ribeirão Preto tornou-se polo formador para profissionais de diferentes regiões do país, contribuindo para qualificar a assistência em saúde sexual e reprodutiva.

“Atuamos não apenas na produção de evidência, mas também na mudança concreta da assistência oferecida às mulheres”, afirma.

Referência global para políticas e protocolos

Os dois documentos lançados respondem a questões centrais da prática contraceptiva: se um método pode ser utilizado com segurança por determinada pessoa e como ele deve ser iniciado, acompanhado e manejado na rotina dos serviços.

O Medical Eligibility Criteria organiza a segurança dos métodos em categorias objetivas, reduzindo exclusões desnecessárias e oferecendo respaldo técnico às decisões clínicas. Já o Selected Practice Recommendations orienta o manejo prático — início de métodos, troca, condutas diante de efeitos adversos e situações frequentes da atenção primária.

Elaborados com participação internacional e baseados em evidências atualizadas, os documentos servem de base para diretrizes nacionais, protocolos institucionais, programas de formação e políticas públicas em diferentes países.

Desafios para implementação

Com as novas edições publicadas, o principal desafio passa a ser a disseminação e incorporação das recomendações na prática cotidiana. As mudanças nos critérios de elegibilidade foram pontuais, mas a implementação das medidas de redução da dor na inserção do DIU exige treinamento técnico específico, especialmente para o bloqueio anestésico.

“A promoção do alívio da dor na inserção do DIU muitas vezes depende de capacitação prática. É dever das faculdades, das sociedades médicas, dos congressos e dos governos promoverem esses treinamentos”, destaca a professora.

A participação da docente no grupo internacional amplia a inserção da FMRP em instâncias globais de formulação de diretrizes e reforça o papel da instituição na produção e aplicação de evidências científicas em saúde reprodutiva.


Dr. Fisiologia — Assessoria de Comunicação da FMRP-USP