Iniciativa apoiada pela FAPESP prevê plataforma digital com recursos de Inteligência Artificial para fortalecer a Avaliação Programática baseada em competências
A Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP teve aprovado, no âmbito do Programa Nova Geração de Pesquisadores (PIP) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), o projeto “Fundamentos para a avaliação de estudantes de medicina baseada em competência: solução mediada por tecnologia para a implementação plena da Avaliação Programática no Brasil”. A proposta tem como foco desenvolver uma plataforma digital para apoiar a avaliação de estudantes de Medicina de forma mais estruturada e alinhada à formação baseada em competências.
A iniciativa é coordenada pela professora Cinara Silva Feliciano, docente do Departamento de Clínica Médica e do Centro de Desenvolvimento Docente para o Ensino (CDDE) da FMRP-USP, que atua como pesquisadora responsável pelo projeto. A equipe de pesquisa conta ainda com a participação dos professores Fábio Carmona e Valdes Roberto Bollela, ambos do Departamento de Clínica Médica.
O projeto foi contemplado na Chamada 2025 – 1º Ciclo do PIP/FAPESP. A vigência será de 1/3/2026 a 28/2/2031, com financiamento de aproximadamente R$ 1,2 milhão. De acordo com a documentação da FAPESP, a proposta foi concedida após análise por assessorias externas e por comitê científico, que destacaram sua relevância, originalidade e potencial de impacto.
Avaliação mais ampla e integrada da formação médica
A formação médica baseada em competências exige modelos de avaliação capazes de acompanhar o desenvolvimento do estudante ao longo de sua trajetória. Isso envolve não apenas o domínio teórico, mas também habilidades práticas e atitudes profissionais.
Esse ainda é um desafio na Educação Médica. Com a expansão dos cursos de Medicina no Brasil, cresce a necessidade de aprimorar os processos avaliativos, de modo a reunir diferentes evidências sobre o percurso formativo. É nesse contexto que o projeto da FMRP-USP se insere, ao propor uma ferramenta de apoio à Avaliação Programática.
O modelo proposto pela faculdade busca superar as limitações das provas tradicionais, que muitas vezes não capturam a complexidade da prática médica. Segundo a professora Cinara Silva Feliciano, o objetivo é consolidar um sistema de “avaliação para a aprendizagem”, que atue como um guia para o aluno em vez de apenas uma ferramenta classificatória.
“Na prática, isso significa avaliar não só o conhecimento teórico, mas também habilidades clínicas e atitudes profissionais, como postura e ética — competências essenciais para o exercício da Medicina”, destaca Cinara Silva Feliciano, professora e docente da FMRP-USP.
Plataforma digital para apoiar a Avaliação Programática
A proposta prevê o desenvolvimento de uma plataforma digital voltada à organização, ao registro e à análise das avaliações aplicadas na graduação em Medicina. A solução contemplará instrumentos relacionados aos domínios cognitivo, psicomotor e atitudinal, permitindo acompanhar, de forma articulada, diferentes informações produzidas ao longo da formação.
“Na prática, a avaliação deixa de ser pontual (atribuindo-se uma nota de 0 a 10 a cada estudante capaz de definir sua progressão no curso) e passa a ser um processo contínuo de aprendizado, permitindo a formação de uma ‘imagem completa e detalhada’ da real competência do estudante”, esclarece Cinara.
Estrutura e funcionamento da proposta
Entre as ações previstas estão a criação de banco de questões e de estações de habilidades práticas organizadas por competências, além da realização de análises psicométricas das avaliações. O projeto também inclui o desenvolvimento de funcionalidades para e-portfólio estudantil, recurso que permite registrar evidências do percurso acadêmico, e estudos de usabilidade com docentes e estudantes.
Essas iniciativas mostram que o projeto vai além do desenvolvimento de uma ferramenta, envolvendo também a organização dos processos avaliativos e o aprimoramento dos instrumentos utilizados no ensino.
“Em geral, predomina um modelo focado em provas teóricas, que não consegue capturar toda a complexidade da formação médica, para a qual competências práticas e atitudinais são obrigatórias. Há uma lacuna importante na avaliação contínua, integrada e baseada em múltiplas evidências, o que, em última análise, impacta diretamente na assistência prestada aos pacientes”, explica Cinara.
Tecnologia e uso de IA
Outro componente do projeto é a integração de ferramentas de Inteligência Artificial (IA) para apoiar a qualificação dos instrumentos avaliativos e a análise dos dados gerados. Conforme o despacho da FAPESP, está prevista inclusive a contratação de serviço ligado à ferramenta OpenAI durante o período de desenvolvimento da iniciativa.
“O projeto propõe um sistema que reúne diferentes instrumentos e fontes de informação, permitindo uma visão mais completa do estudante. Além disso, incorpora tecnologias como inteligência artificial para apoiar a elaboração de avaliações e a geração de devolutivas, e prevê a construção de um modelo adaptado à realidade brasileira — algo ainda inexistente no país”, afirma a pesquisadora.
Formação de pesquisadores e colaboração internacional
O projeto também prevê investimento na formação de recursos humanos, com uma bolsa de Doutorado Direto, com duração de 48 meses, e uma bolsa de Iniciação Científica. A iniciativa contribui para a formação de pesquisadores na área de Educação Médica.
Além disso, a proposta conta com parceria com a Universidade de Maastricht, nos Países Baixos, reconhecida internacionalmente na área de Avaliação Programática. Estão previstas atividades de intercâmbio e consultoria técnica, reforçando a inserção internacional da FMRP e o diálogo com experiências de referência no tema.
Impacto para a formação médica
A aprovação do projeto reforça a capacidade da FMRP-USP de captar recursos competitivos e de desenvolver iniciativas que articulam pesquisa, ensino e inovação. Também amplia a presença institucional da Faculdade em uma área estratégica para a qualificação da formação médica.
Nos pareceres técnicos emitidos pela FAPESP, a proposta foi descrita como inovadora, competitiva internacionalmente e com potencial para contribuir para o aprimoramento da avaliação da formação médica no Brasil.
“Com isso, esperamos qualificar os processos de avaliação na formação médica, tornando-os mais justos, integrados e alinhados à prática profissional. O impacto esperado é contribuir para a formação de médicos mais preparados para atender às necessidades reais da sociedade e oferecer um cuidado em saúde de maior qualidade”, conclui Cinara.
Texto: Laura Madalossi*
*Estagiária sob supervisão de Renata Steinbach
Dr. Fisiologia — Assessoria de Comunicação da FMRP-USP