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Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto lidera participação em projetos nacionais de inovação em saúde e reforça papel estratégico no Sistema Único de Saúde

Faculdade concentra metade das iniciativas aprovadas em parceria entre Ministério da Saúde e Embrapii, com foco em terapias avançadas e desenvolvimento tecnológico

O Ministério da Saúde anunciou, no dia 26 de fevereiro, um investimento de R$ 90 milhões em projetos de alto impacto em saúde, desenvolvidos em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii). Entre as instituições participantes, a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP se destaca ao integrar três dos seis projetos aprovados, ampliando sua atuação em iniciativas voltadas à inovação e ao fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS).

“Para a FMRP-USP, para a USP e para nós, isso representa uma confirmação, uma validação dos nossos objetivos institucionais e pessoais. Esse tipo de resultado só é possível num contexto que você tem, como prioridade, tanto para as instituições e para as pessoas no seu âmbito individual, o avanço científico”, afirma o professor Fernando Cunha, da Embrapii FMRP.

Projetos ampliam inovação e acesso à saúde

As iniciativas buscam ampliar o acesso a terapias avançadas, aprimorar métodos diagnósticos e incentivar a produção nacional de medicamentos estratégicos. O foco está no enfrentamento de doenças como câncer, esclerose múltipla e diabetes, que exigem soluções de alta complexidade e ainda dependem, em grande parte, de tecnologias importadas.

Os projetos reúnem recursos públicos e privados, com participação do Ministério da Saúde, da Embrapii e de empresas parceiras. A seleção ocorreu por meio de chamada pública lançada em 2025 e envolveu diferentes unidades de pesquisa e instituições estratégicas, com o objetivo de desenvolver soluções aplicáveis ao SUS.

As propostas também incluem o uso de inteligência artificial para diagnóstico em regiões com menor infraestrutura, além do fortalecimento da produção nacional de insumos, como anticorpos monoclonais, contribuindo para ampliar a capacidade tecnológica do país.

Três projetos com participação da FMRP

Entre os projetos com participação da FMRP, destaca-se o desenvolvimento de engenharia in vivo de linfócitos CAR-T para o tratamento de câncer, uma das abordagens mais avançadas da medicina atual.

“É uma das abordagens mais promissoras para certos tipos de câncer e, hoje, praticamente inacessível no sistema público por conta do custo. Ter uma solução produzida nacionalmente para mudar essa equação no médio prazo”, explica Cunha.

A iniciativa envolve parcerias com o Cimatec, empresas farmacêuticas e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com investimento de R$ 20,3 milhões.

Também integram o conjunto de projetos o desenvolvimento de uma plataforma para descoberta de insumos farmacêuticos ativos (IFAs) voltados a doenças imunomediadas, em parceria com o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) e a indústria farmacêutica, e a criação de um biofármaco para o tratamento da esclerose múltipla, em colaboração com centros de pesquisa e empresas.

Essas iniciativas ampliam a capacidade da instituição em desenvolver soluções terapêuticas inovadoras em parceria com o setor produtivo.

“O modelo EMBRAPII vem para favorecer essa sinergia, ele cria um fluxo contínuo, digamos, mais apto a lidar com a complexidade das empresas. Em resumo, modelos como o da Embrapii, dão à universidade pública, uma capacidade de articulação entre a demanda industrial e a resposta científica”, destaca Cunha.

Estrutura da Unidade Embrapii FMRP-USP

A Unidade Embrapii FMRP-USP desempenha papel central nesse processo ao reunir competências em áreas como imunologia, farmacologia, bioinformática e química medicinal. Essa estrutura permite integrar pesquisa básica, translacional e clínica, facilitando a transformação do conhecimento científico em aplicações concretas.

“Desenvolver aqui um biofármaco para esclerose múltipla ou uma tecnologia para monitoramento para pacientes diabéticos significa reduzir esse custo, aumentar a capacidade de fornecimento e dar ao SUS mais autonomia sobre tecnologias estratégicas”, afirma Cunha.

O pesquisador também ressalta a necessidade de enfrentar desafios históricos da inovação em saúde. Um dos principais é o chamado “vale da morte”, que representa a dificuldade de transformar descobertas científicas em soluções disponíveis para a população. Esse processo envolve barreiras científicas, regulatórias e industriais que exigem atuação coordenada.

“Na dimensão industrial, existe uma diferença enorme entre produzir um biofármaco em laboratório e escaloná-lo para atender ao SUS. Isso exige parceiros industriais dispostos a investir na etapa produtiva, e o modelo EMBRAPII tem papel fundamental em atrair e qualificar essas parcerias”, explica o professor.

Formação científica e impacto institucional

Com mais de 70 anos de tradição em pesquisa, a FMRP acumula contribuições relevantes para a ciência e a saúde, com resultados que impactaram diretamente a prática médica. A participação em iniciativas desse porte amplia a inserção da instituição em projetos de inovação com aplicação prática.

“Atuar num projeto da EMBRAPII ou de um CEPID faz com que o aluno visualize, de maneira mais consistente, como as questões de propriedade intelectual, transferência de tecnologia, escalabilidade e relação com parceiros privados fazem parte da sua formação como pesquisador”, ressalta Cunha.

Perspectivas para o SUS

A Embrapii atua como elo entre instituições científicas e o setor produtivo, compartilhando custos e riscos da inovação e estimulando o desenvolvimento de novas tecnologias. Esse modelo contribui para ampliar a capacidade do país de transformar conhecimento científico em soluções aplicadas à saúde pública.

“Para finalizar, os últimos anos mostraram, de maneira ainda mais contundente, que o Brasil vai precisar de centros capazes de operar tecnologia aqui, sem dependência externa. Eu vejo com muita satisfação e alegria o papel que a FMRP tem ocupado, e acredito que, com a inserção responsável e com o trabalho sério de nossos pesquisadores, cada vez mais nossas condições para essa independência tecnológica ficam mais consolidadas”, conclui Cunha.


Texto: Laura Madalossi*
*Estagiária sob supervisão de Renata Steinbach
Dr. Fisiologia — Assessoria de Comunicação da FMRP-USP