Reconhecimento internacional consolida quatro décadas de pesquisas da instituição em neuropsiquiatria e abre caminho para novas aplicações médicas do composto extraído da cannabis
Entre os anos de 1940 e 2019, 62 países contribuíram com artigos sobre cannabis e cannabidiol (CBD), e o Brasil está entre os cinco países com o maior número de artigos publicados, totalizando, neste período, 138 publicações. Mundialmente, a FMRP-USP está entre as instituições mais produtivas, e a faculdade receberá o prêmio internacional CannaPortugal Global Cannabis Award 2026. A gratificação será entregue oficialmente em 17/10 na Ilha de São Miguel, nos Açores (Portugal), ela reconhece o pioneirismo e o acervo de pesquisas da instituição na comprovação da segurança e das propriedades terapêuticas do composto não psicoativo da Cannabis sativa.


A cerimônia faz parte da programação do evento promovido pela CannaPortugal, agendado para os dias 16 e 17/10. O encontro reunirá especialistas de diferentes países, representantes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), membros da Sociedade de Estudos da Cannabis Brasil e associações de pacientes. Na ocasião, a FMRP-USP será representada pelo professor José Alexandre de Souza Crippa.
Para Crippa, a homenagem concedida no exterior simboliza a glorificação de uma trajetória científica sólida e continuada construída no país. “O reconhecimento que a Faculdade receberá em Portugal representa, portanto, não apenas um prêmio por descobertas específicas, mas por décadas de construção de uma das linhas de pesquisa em canabinóides mais consistentes e internacionalmente reconhecidas desenvolvidas no Brasil”.
A conquista reflete um trabalho iniciado há décadas no campus de Ribeirão Preto. A trajetória é liderada pelos professores José Alexandre de Souza Crippa, Antonio Waldo Zuardi, Francisco Silveira Guimarães e Jaime Eduardo Cecílio Hallak, em parceria com docentes, pesquisadores em estágio pós-doutoral, pós-graduandos e equipes técnicas da faculdade e do Hospital das Clínicas.
Ao avaliar a dimensão da premiação, Guimarães destaca que o resultado decorre da cooperação integrada e contínua entre as frentes de pesquisa clínica e pré-clínica. “Creio que reflete o trabalho de um grupo, iniciado pelos estudos pioneiros do Prof. Antonio Waldo Zuardi, que ao longo destas últimas décadas vem desenvolvendo uma abordagem verdadeiramente ‘translacional’, com colaborações bi-direcionais entre os grupos clínicos e pré-clínicos.”

Liderança mundial comprovada
Levantamentos conduzidos por cientistas chineses confirmam a liderança global da USP. O primeiro mapeamento (1940-2019) colocou a USP como a instituição mais produtiva do mundo em cannabis medicinal, superando em mais de 50% o segundo colocado, o King’s College London.
No mesmo estudo, os professores Francisco Silveira Guimarães e Antonio Waldo Zuardi lideraram o ranking mundial de autores mais produtivos, enquanto José Alexandre de Souza Crippa e Jaime Eduardo Cecílio Hallak figuraram entre os dez principais. O mapeamento destacou o pioneirismo brasileiro nos primeiros ensaios clínicos sobre os efeitos ansiolíticos e antipsicóticos do CBD em humanos.
Ao analisar o impacto dos trabalhos desenvolvidos pela faculdade, Crippa enfatiza que o maior mérito do grupo foi conferir rigor e legitimidade científica ao estudo da substância. “Talvez a contribuição mais importante da FMRP-USP tenha sido justamente ajudar a transformar o canabidiol de uma substância cercada por controvérsia em um objeto legítimo de investigação científica e, em algumas indicações, uma alternativa terapêutica baseada em evidências.”

Um segundo levantamento, focado nas publicações veiculadas entre 2004 e 2021, reiterou a liderança da FMRP-USP em volume de trabalhos e no total de citações recebidas. Os dados apontam que a instituição responde por 70,5% de toda a produção científica brasileira sobre o canabidiol, mantendo o Brasil entre os cinco países que mais pesquisam a área.
Avanços na medicina pré-natal e na saúde mental
As pesquisas da FMRP-USP abrangem medicina fetal, neuropsiquiatria e neurobiologia celular. Sobre essa atuação, Guimarães ressalta o papel dos estudos de laboratório. “Os estudos pré-clínicos nesta área [de CBD] continuam sendo imprescindíveis, visto a compreensão de que o comportamento é uma propriedade emergente do sistema mais complexo que conhecemos, o sistema nervoso central.” Para o pesquisador, conhecer características específicas de determinados grupos de neurônios, não é o suficiente para compreender como os comportamentos são gerados e controlados.
Em investigações sobre a gastrosquise, uma malformação em que os órgãos abdominais do feto se desenvolvem fora do corpo, a administração materna de CBD reduziu, de forma segura, a inflamação intestinal fetal, indicando seu potencial como estratégia de proteção ainda no período pré-natal. Na área clínica, a instituição reúne evidências sobre a eficácia do CBD na ansiedade, em crises epilépticas graves (como nas síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut) e na Doença de Parkinson, onde reduziu sintomas não motores, como psicose e distúrbios do sono, sem afetar a motricidade. As pesquisas indicaram ainda que o CBD atua nas células gliais, essenciais para a proteção e o suporte nutricional dos neurônios, pois combatem a neuroinflamação e estimulam a neuroplasticidade.
Ao detalhar a evolução das investigações, Crippa explica o foco no entendimento do composto. “Demonstramos efeitos do CBD sobre ansiedade, psicose e circuitos cerebrais por meio de estudos de neuroimagem e avançamos para investigações clínicas em diferentes condições [..] Um aspecto importante desse percurso foi não permanecer apenas na demonstração de possíveis efeitos terapêuticos, mas procurar compreender como o CBD atua no cérebro, quais doses são mais adequadas, quais pacientes podem se beneficiar e quais são seus limites e riscos.”
Guimarães alerta, ainda, sobre a importância do manejo correto da substância, especialmente com relação à dosagem. “Esse é um conhecimento [da Cannabis sativa] importante, pois reforça a necessidade de monitorar adequadamente as doses sendo administradas, afastando a ideia simplista de que, se o fármaco não está sendo efetivo, basta ir aumentado a dose.”
Laura Madalossi
Dr. Fisiologia — Assessoria de Comunicação da FMRP- USP